Quinta-feira, Maio 29, 2008

Final Feliz

Antes de mais: o cão já regressou a casa. Final Feliz, portanto.

Muito obrigada a todos aqueles que se preocuparam e que me ajudaram a encontrar o dono. E um beijinho muito especial para as várias pessoas que me contactaram com esperança de que o cão que acolhi, fosse o seu cão desaparecido. Recebi relatos absolutamente comoventes de famílias que não desistem de procurar os seus animais, que não os esquecem e cujo sofrimento pela perda do amigo de quatro patas me emocionou muito. Para esses, os que procuram e não esquecem, as palavras do Poeta:


"Há momentos em que parto não sei para onde. Navegação espiritual. Ou dispersão na terra abstracta, a única que se vê quando não se vê. São as grandes caçadas dentro de mim mesmo, a busca da magia perdida, uma palavra cintilante, uma perdiz imaginária, um sopro, um ritmo, uma espécie de bafo. Como o teu. Às vezes sinto-o, outras não. Mas sei que estás aí, algures, enroscado na minha própria solidão."


Manuel Alegre ( "Cão Como Nós")

Domingo, Maio 25, 2008

Encontrei um Leão da Rodésia

Tenho um Leão da Rodésia em casa desde Sábado de manhã. Um cão lindo, meigo, enorme.
Tentei ignorá -lo, esquecer -me dele. Mas durante três dias seguidos, a vida obrigou -me a passar pela mesma rua, ao pé da Estrela e lá estava ele, com um ar desolado a ensaiar o sono no meio da rua. No meio da rua mesmo, sujeito a ser atropelado. Tratado, com uma coleira bonita, este cão só se pode ter perdido, não acredito que alguém o tenha abandonado.
Parei o carro e aceitei o meu destino. De qualquer forma não ía conseguir dormir , imaginado - o ali deitado no meio da estrada. Abri o porta - bagagens do carro e o cão ( como se me conhecesse da vida inteira) saltou lá para dentro com uma elegância olímpica e adormeceu imediatamente. Lá se foi o meu Sábado. Siga para o veterinário . Pode ser que o cão tenha chip e consigamos encontrar o dono.

E não é que tem ? Só que os cães não se podem perder ao fim -de -semana . A base de dados só está disponível Segunda - feira. Palavras da veterinária carinhosa. Alternativa? Canil Municipal.

O Cão olhou para mim com meiguice e encostou - se às minhas pernas.

Lá fomos embora. Cão, comida, uma trela emprestada e um problema para resolver. Obviamente não vou deixar o bicho no canil. Mas o gato Matias ( dono e senhor da minha casa) não vai achar piada nenhuma a este novo inquilino improvável.

O gato Matias bufou e ficou o dobro do tamanho. O cão ( não sei o nome dele , trato -o por cão para não o baralhar) mostrou os dentinhos. Um eufemismo, tendo em conta a raça.

Resumindo: tenho um Leão da Rodésia lindo e meigo em minha casa a dormir no quarto de hóspedes e um gato Matias a passear - se pelo resto do apartamento . Na primeira noite , dormiram em turnos no meu quarto , pois pelos vistos nem um nem o outro gostam de dormir sozinhos. Uma animação.

Já andei pela net a pesquisar se alguém anda à procura do bicho. Não encontrei nada a não ser testemunhos de outras pessoas que tal como eu viram o bicho abandonado na mesma rua. Tenho esperança que através do google os donos cheguem aqui pesquisando Leão da Rodésia ou ENCONTREI UM LEÃO DA RODÉSIA.

Amanhã isto resolve - se. Acredito que de facto o cão se tenha perdido e não tenha sido abandonado. E que ande uma famíla querida à procura dele.
É que eu também já perdi o cão de família há uns anos e não foi nada agradável. Ninguém pregou olho enquanto o bicho não apareceu e quando finalmente o fomos buscar a casa de alguém que o recolheu com ternura, foi um momento de enorme felicidade. Pode ser que a história se repita, desta vez comigo, do outro lado da narrativa.

ENCONTREI UM LEÃO DA RODÉSIA. Chama - se cão e está à espera que o venham buscar, pois por muitos mimos que lhe dê, guarda um olhar perdido de quem precisa, urgentemente, de
regressar a casa.


ritarodrigues@sic.pt ( para eventual contacto)

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Deslumbrada Poeira

Foi o sofrimento que provocou a ausência da escrita. O sofrimento da perda. Da puta da perda que persegue a vida de todos aqueles que teimam em amar e em fazer do amor a única forma de sobrevivência, a única religião, a única certeza.
Perdi a Manelinha. A minha Manelinha de quem não me despedi ( mais uma vez não me despedi)

Tal como o meu avô tinha a capacidade única , de ser única. Um livro aberto de poesia agora disponível no universo.
Lia -me no silêncio, na cumplicidade.
Lia -me sem ser preciso escrever uma palavra.
Lia -me sem ser preciso escrever.
Lia - me sem ser preciso.
Lia - me sem ser.
Lia -me sem .
Lia -me .


Tudo o que escreverei a partir de hoje será sempre, como foi sempre também, para ela.

Exemplo de Mãe, de Mulher,de Avó, de Amiga, de Coragem, De Eterna Beleza.




(O que me fez voltar a querer escrever)
Um telefonema , confidente de alegria vindo da placenta partilhada.
A vida no que tem de mais belo.


Mais um bocadinho de nós, de todos nós, das nossas alegrias, tristezas , vitórias , derrotas, um ímpeto de loucura e de crença no futuro, uma réstea de coragem , da fusão de dois olhares límpidos,


Foi a celebração da vida que me fez escrever.


Como diria o meu avô, o Bom Gigante poeta : " E nós amamos a vida e amamos este Planeta, a Mulher, O Homem, a Natureza e este universo onde somos parte de uma réstea de deslumbrada poeira."


Rita Ferro Rodrigues

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

2 Anos

Mais uma vez, o teu amor, a tua ausência presente, a saudade. Mais uma vez és tu que nos unes, o nosso cimento no edifício dos afectos. A tua família.

2 anos passaram e ninguém, por um dia, te esqueceu.


Estiveste comigo toda a noite, numa insónia tranquila de memórias e até dançámos juntos, ao raiar do dia. Foi tão bom sentir - te emocionado, com as últimas descobertas da tua bisneta Leonor.

Dizem - me que morreste, insistem nessa tolice.
Mal sabem eles que o amor eterno existe e que vai muito para além desse pormenor da morte.

Um beijinho no teu coração, querido avôzinho.


Ps: diz à pequenina Margarida que consigo ouvir as garagalhadas dela, quando passeia contigo de mão dada, em campos cheios de flores.

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Para atravessar contigo o deserto do mundo

"Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento"



Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto (1962)

Quero.

"Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."



Sophia

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

Rosas e Papoilas

Querido avô

Hoje um amigo em forma de papoila ouviu a tua voz numa cassete perdida no tempo, no teu tempo, a tua voz, a tua voz numa casa que não era minha, que não era nossa , a tua voz numa casa,

a tua voz meu avô.

A tua voz que eu luto por não esquecer, porque me dizem que as vozes se esquecem
que os sons desaparecem,
que os gestos se apagam ,
que os cheiros se dissipam,
que as caras se desvanecem,

dizem - me até, meu querido avô
que as pessoas morrem e desaparecem
dizem -me que morrem
dizem -me que morrem

e eu sei tão bem que não é verdade.

Ontem cumpri a tua voz,
liguei para a tua namorada. Continua tão apaixonada.

Confesso que não cumpri as flores
não eram papoilas eram rosas,
uma por cada ano de amor
57 , quando há dois anos, viajaste para uma estrelinha como diz a Leonor
contra todas as indicações dos pedo - psiquiatras
que querem convencê -la ( a ela e a mim)
que as pessoas morrem
que as pessoas morrem e desaparecem




que a estrela que brilha mais intensamente no céu não és tu, avozinho


Eu sei que és a estrela e a minha bébé também
Ontem abrimos a janela para te ver a brillhar no céu

e cheirou -nos a flores,

rosas e papoilas invadiram a casa na escuridão da noite
e tu estavas lá



Tu estava lá e estás aqui sempre.

E eu sei tão bem que é verdade.

Para o Palma com amor e um pedido de desculpas pela ausência

Encosta-te a mim


Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos

encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,

dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,deixa-me chegar.

Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem,

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada
porque arrasei o que não quis
em nome da estrada
onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem,

encosta-te a mim...

O que foi que aconteceu - Ana Moura

Aconteceu
Eu não estava à tua espera
E tu não me procuravas
Nem sabias quem eu era
Eu estava ali, só porque tinha que estar
E tu chegaste porque tinhas que chegar
Olhei para ti
O mundo inteiro parou
Nesse instante a minha vida
A minha vida mudou

Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos?O que foi que aconteceu?
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos, meu amor?O que foi que aconteceu?

Aconteceu
Chama-lhe sorte ou azar
Eu não estava à tua espera
E tu voltaste a passar
Nunca senti, bater o meu coração
Como senti, ao sentir a tua mão
Na tua boca, o tempo voltou atrás
E se fui louca essa loucura
Essa loucura foi paz

Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos?O que foi que aconteceu?
Tudo era para ser eterno. E tu para sempre meu...


Onde foi que nos perdemos, meu amor?O que foi que aconteceu?

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Território das Papoilas

Como é que se explica o sangue, o sangue que nos corre nas veias? A sua velocidade de sedimentação, temperatura e espessura, a forma como ferve e gela com as palavras dos outros, até com os seus mais pequenos gestos ou esboços de movimento? Tudo depende do sangue. Mas o nosso sangue não muda.O nosso sangue não muda.

Como é que se descreve o ar que se respira? ( O ar que desvendas e rasgas em võos audazes e livres) ? Oxigenante e limpo, pesado e intoxicante, tudo depende de tudo, da forma como respiras. Mas o que respiramos não muda. O que respiramos não muda.

Como é que se percebe a terra ? A terra que pisamos todos os dias, a terra que cheira quando chove, que treme quando corremos ( que nos ouve, muda, quando choramos em silêncio). Tudo depende da terra. Mas a terra que pisamos não muda. A terra que pisamos não muda.

Como é que tememos o fogo, idolatrando -o, belo - horrível, aceitando -o como ele é, fascinante e tenebroso, eternamente misterioso mas tão estupidamente verdadeiro. Mas a chama que tememos não muda. O fogo que nos fascina não muda.

Sangue. Ar. Terra. Fogo.

É assim o território das papoilas. É este o amor que as une. Tudo depende do amor. Mas este amor não muda. Este amor não muda. Tão certo como todos os elementos.

Como o sangue que nos corre nas veias, o ar que respiramos, a terra que pisamos e o fogo que idolatramos, eternamente misterioso, tão estupidamente verdadeiro.


Tão estupidamente verdadeiro.

Obrigada, meu amor. (Às vezes, é preciso dizer o óbvio).

Domingo, Dezembro 23, 2007

Suporte de Vida

Enquanto falaram abraçaram - se e choraram sem verter uma lágrima, as palavras a cair pela cara abaixo, entre duas garrafas de vinho.
Não houve barreiras a quebrar, o primeiro abraço moldou o carinho, a profundidade de tantos territórios comuns por percorrer, uma família em que as pessoas se chamam alto e pelos nomes e pedem mimos como quem pede flores,

são as papoilas, meus amores,

são as papoilas

a resistir a tudo,




Uma coroa de flores bonitas, suporte de vida uns dos outros. Papoilas felizes, agarradas umas às outras e venha o vento, as tempestades e a bonança ,

que cá permaneceremos todos,
"a sorrir devagarinho na noite mas entrando depressa na vida"

Feliz Natal.


Rita Ferro Rodrigues

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

E o amor?

E o amor?


O AMOR EXISTE. Inundado. Inteiro e absoluto.Feliz na dolorosa loucura que é a vida.

A "tropeçar de ternura" . A tropeçar na certeza de qualquer coisa que se sente como eterno, imensamente bonito, tão bonito, tão bonito.

Há coisas pelas quais o mundo tem de esperar mas que são o mundo todo, em si.


E é só isto.

Segundo

Segundo: a dimensão do amor

A frase em si é uma contradição. Não se mede o amor, a grandeza do que sentimos.
Hoje , o amor não tem medida , tem nomes,
Héldér,
Manela,
e que sentido estes dois nomes fazem juntos, em par e em separado,
uma noite em que a vida se celebra e em que percebemos... que independentemente de tudo,
tudo somos nós,
e o amor que sentimos uns pelos outros,


o amor pode tudo. Sustenta tudo

dá sentido a tudo.

Primeiro : filha

Primeiro: filha

E do dia em que pegaste pela mão,
para me dizer,
aos 5 anos de vida,
que o Pai Natal não existe.
são-os-pais-mãmã- que -deixam-os -presentes-na -árvore -de-natal-até-porque-mãmã-as -renas -não- têm-asas-não-podem -voar


mas nós podemos meu amor e voaremos sempre as duas juntas , pela vida fora.

Terça-feira, Outubro 30, 2007

Tão bem escreve esta mulher.

"O mais estranho, é que gosto mesmo de ti. Gosto moderadamente dos amigos e tolero os colegas, a porteira, a empregada e o antunes do supermercado. Mas de ti, gosto mesmo. A tua lembrança é um prazer que desliza, surripiando-me; chegas de repente, agradável como uma brisa quente ou uma boa notícia, e eu imagino-nos cenários, não amorosos nem eróticos, mas, antes, de circunstância: encontros fortuitos, casuais, um pequeno-almoço, um relance de carro, um telefonema, uma gargalhada, um encontro de pulsos, de tornozelos. Faço-o sem qualquer expectativa romântica ou intuito amistoso: és menos do que um amante e mais do que um amigo. Não que me sejas mais próximo ou íntimo, porque não o és, mas porque, mesmo longínquo, me exaltas e entreténs, ocupando o meu espírito movediço e centrando-o, como a perspectiva de ir de férias ou de casar amanhã. Não me iludo, não é disso que se trata: apenas te construo em mim, uma e outra vez, como uma primeira dentada antecipando a gula, lenta e deliberada. Nunca o esmaecer do teu rosto me angustia, antes, enleva-me e inspira-me, soalheiro. Há momentos em que te conduzo para sítios bonitos de cartaz, como jardins secretos e praias desertas, e onde te vejo ao meu lado como se estivesses mesmo. Ali, entabulo conversas, contradigo-te e acotovelo-te, deixando que me faças cócegas e me olhes longamente, como os casais nas fotografias. Encontro-te no estame de uma flor, na caruma dos pinheiros e na linha do horizonte: basta-me olhar com atenção. E cheiras sempre bem: uma mistura de pólenes, resinas e maresias, da qual sobressai o travo adocicado do desejo, quieto como as nuvens mais altas. Acima de tudo, enterneces-me. E é esta perenidade mansa, que não reconhece o escavar do tempo, que não pede retorno e se basta em si mesma, que às vezes me inquieta e assusta, nem sei bem porquê."

Em www.umamoratrevido.blogspot.com definitivamente o meu blogue preferido.

Terça-feira, Outubro 23, 2007

Cinema Paraíso - Ausência IV

Parece que há lágrimas que não secam nunca. Não sei de onde vêm , tão depressa, ditatoriais, impondo - se quando digo o teu nome, como paga pela veleidade de te enunciar, de te ir enunciando a medo, timidamente, dois anos depois da tua ausência ( teimam em dizer -me que morreste)

Continuo a ver - te na rua
e nos jardins
e nas bibliotecas
e nos poemas
e nos olhos de despedida da avó

Continuo a ouvir - te cantar e o teu riso habita a escada da minha casa
a tua gargalhada, aquela que me devolvia a alegria e resgatava sempre do sítio mais escuro onde estivesse

Ouves - me?

Sinto - te ao meu lado no cinema, Cinema Paraíso, sem trocarmos palavra, a ficha técnica a passar - nos em frente aos olhos, os nossos soluços sem idade, a noção da perda, da saudade que já sentíamos um do outro.

Lembro -me das tuas lágrimas - choravas muito por coisas bonitas, o mundo emocionava - te, ensinaste - me isso, esse arrepio de estarmos vivos e testemunharmos a beleza como um roubo, um assalto permitido, a alegria da desobediência, o imperativo de sermos felizes.

Lembro -me das tuas lágrimas- choravas quando se celebrava o amor, pleno, livre ou censurado, o amor verdadeiro, aquilo que nos move. A paixão insubmissa e todos os seus escudeiros ( e lá vem o Cinema Paraíso outra vez e aquela relíquia sequência final que resume tudo e a música que a abraça que tal como o teu nome, não consigo enunciar, a música que te evoca e me evoca as lágrimas ditatoriais, procuro -te, sou pequenina outra vez, dá -me a mão, vamos passear, éramos tão bons a passear)


Teimam em dizer -me que morreste

Continuo a ver - te na rua.




Rita Ferro Rodrigues

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

Gostava que fosse meu, não é.

"Na noite em que bebeste medronho, e me pediste a lua, ouvi os deuses cantarem de dentro das pedras.
Enquanto me fazias perguntas, e eu te olhava como se nunca te tivesse visto,
limitei-me a recolher o canto que subia da terra, como se nele estivesse a resposta que me pedias.
E entre o pedaço de seio que subsiste dessa noite, e a lua que não fui buscar, o tempo escorre pelas mãos que guardaram a tua voz, como se fosse um fruto, e a deixaram macerada nos meus ouvidos, para que dela nascesse o licor do poema."

Nuno Júdice

Terça-feira, Outubro 09, 2007

Laurindinha II

(Carrinha monovolume de 7 lugares cheia. Pais à frente, crianças arrumadinhas nas suas cadeiras, tarde no Porto chuvosa, jogo das adivinhas)

Princesa Carolina 5 meigos anos: "Qual é coisa qual é ela cai no chão fica amarela?"
Princesa Leonor 5 imprevisíveis anos: " O ovo ."

Princesa Carolina esforça - se por aumentar grau de dificuldade: " Qual é coisa qual é ela, chega a casa e põe - se logo à janela?"
Princesa Leonor, enfastiada e sem hesitações: " É a Laurindinha."


No meio da risota geral, procura - se o CD da Amália e canta - se em uníssono abrindo uma brecha de alegria na tarde tristonha de nevoeiro :

" Ó Laurindinha!!!! Estás à Janela! Ai o meu amor, ai, ai, ai, ele foi para a guerra, ele foi para a guerra, ele foi para a guerra..."

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Desde os 15, o meu poema

Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal



Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti


Alexandre O'Neill

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Chá e Amor

"Mãe, deixa- me beber esse sumo!"

"Não podes Leonor , é chá preto, deixa - te o coração aos saltos, faz - te mal"

( Leonor entende. Mãe bebe, distraída, uma grande golada do líquido)


"Mãe!!!!??? Então ???? Não bebas isso!!!!!!"

( Mãe quase cospe o chá preto e balbucia, a medo...)

"Porquê, meu amor?"

( Leonor séria de olhos gigantes esbugalhados)

"Tu não dizes que eu estou sempre dentro do teu coração? Não me apetece andar aos saltos, mãe! Tou cansada da escola, pá!!!!! "

Mãe

A minha Mãe fez Sessenta anos. Nunca a vi tão bonita, como agora.

Porque me ensinou a olhar pelos outros como olhamos por nós, não a consegui beijar e abraçar como planeara, como todo o amor que ela merecia, nesse dia.

A minha mãe percebeu que a minha ausência , significou apenas, a presença noutra mãe( coragem).


No dia em que a minha mãe fez 60 anos celebrei, duplamente a vida.E beijei- a , agradecida, por me ter ensinado o Amor.

Terça-feira, Junho 19, 2007

Talento

Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.



"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva. "

Fernanda Braga da Cruz

Segunda-feira, Junho 04, 2007

Feira do Livro, Noddy e Lobo Antunes

Como todos os anos, cumprindo uma tradição familiar que já vem dos meus avós, lá fui eu à Feira do Livro de Lisboa no seu primeiríssimo dia, acompanhada pela minha pequena Leonor mesmo à beirinha de 5 irrequietos anos.

A única coisa que a Leonor se lembrava da visita do ano anterior foi de um encontro extraordinário com o Noddy que até lhe pegou ao colo e com quem ela dançou.

Ora Leonor, começa a descer o Parque Eduardo VII e a bombardear -me com a interrogação: "Vai lá estar o Noddy, Mãe?"
"Não sei, filhota."

Já a chegar às primeiras barraquinhas da Feira, Leonor depara - se com uma impressionante fila de gente de livro na mão, numa espera ordeira por um autógrafo.


A desvairada da miúda larga - me a mão, desata a correr e a gritar : "NODDY!!!NODDY!!!!"
Estaca à frente de um António Lobo Antunes de chapéu , cigarro numa mão e caneta noutra e desabafa, corada da corrida e da desilusão: "EPÁ!!!!!!TU NÃO ÉS O NODDY!"

Toda uma impressionante fila a rir, claro.
Uma mãe tão envergonhada que nem teve coragem para olhar nos olhos do brilhante escritor.

Disseram -me mais tarde que terá sorrido.
Gosto de acreditar que sim.

Sexta-feira, Maio 11, 2007

M

Sabendo eu que as tuas lágrimas não vão enxugar nunca,
depois de quase te teres deixado naufragar numa dor imensa, a Maior
voltaste a encontrar - te na ternura daqueles olhinhos azuis,
onde juntas navegámos e navegaremos sempre que tu quiseres.

Porque o amor quando existe, é eterno. E devemos chorar e sorrir e chorar e sorrir e saber sempre
que Muito para além desta terra que pisamos, deste céu que teimamos em olhar,
deste Mar que nos cerca, banha e lembra, sempre.
Existe o infinito, o indizível, a insondável presença
da ternura daqueles olhinhos azuis em ti,


e agora também para sempre, em Mim.
E por isso podemos sorrir. E chorar e sorrir. E sorrir.

Da tua,

Currusquinha

Sexta-feira, Abril 27, 2007

Que Grande Chatice Me Foste Arranjar

"Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te. Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim. Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei. Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te."


Mais um texto despudoradamente corajoso .Em www.umamoratrevido.blogspot.com

Quarta-feira, Abril 25, 2007

25 de Abril

Sempre.


O telefonema à meia-noite entre pais e filhos, entre irmãos.
33 anos depois, entre Lisboa e Paris, Viva A Liberdade.

Quinta-feira, Abril 19, 2007

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"Nunca me deixaram antes, sabes, fui eu sempre que fugi, trancas à porta, adeus que se faz tarde. Nunca me esqueceram primeiro nem nunca amei quem não me amou. Não é presunção, é questão de me fazer todo o sentido: o Amor é um encontro de vontades no espaço sideral, é um nó que flutua, solto, mas que não se desfaz enquanto as duas pontas não se desentrelaçarem
em simultâneo. Como poderia amar-te se tu não me amasses de volta? Como poderia amar-te sem conhecer, compreender e aceitar os termos do teu Amor? Se apenas eu te quisesse, o meu querer seria a ponta solta de um cabo eléctrico à deriva numa poça de água, sem rumo, apenas à procura de fazer doer a alguém. Por isso acho estranho, continuar a chorar às escondidas por ti, quando, supostamente e de acordo com todas as regras do bom-senso e da boa vida, tu já nem te lembras que existo. Que sentido faria, encolher-me os joelhos como uma miúda acossada pelos mais velhos e remeter-me, triste, o rosto entre mãos, para o canto do recreio, se tu não recordasses ainda os traços que me compõem o rosto? Seguro de que não te amaria, se não viesses igualmente ao meu encontro, se não corresses algures na minha direcção. Nunca poderia ter continuado a dar-te colo, se me tivesses virado as costas, nunca poderia amar-te as costas, o teu encolher de ombros, esse gingar de ancas desacauteladas. Não entendes? Tens de estar à minha volta, a rondar-me a teimosia, para que eu ainda me lembre de ti. Tens de, por vezes (só por vezes, é o que basta), dormir comigo e de me fingires tua companhia ao almoço, para eu ainda te ter tanto carinho. Tenho de continuar presente na vontade das tuas mãos, na ponta dos teus dedos. Se eu ainda te amo é porque nos encontramos com frequência a meio caminho um do outro, sobre um lago gelado,um campo de trigo, uma estrada deserta. Ou no reflexo de uma chávena de café, no períneo da cidade morta."


www.umamoratrevido.blogspot.com

Terça-feira, Abril 17, 2007

Querido Avô

Dia 15 que passou, a bisneta colou o nariz ao vidro de casa que lhe revela as estrelas do céu e cantou - te os Parabéns.
Depois disse, convicta: " ele gostou muito que eu sei".

Está francamente engraçada, a bisneta. Ontem no Jardim da Parada a andar de baloiço ( com receio de tirar as mãos das cordas) desatou aos gritos: "Mãe, coça -me aqui no sítio onde os homens põem o bigode!!!". Comichões!

Também diz que tudo é "muitáfixe" e que a água do banho está sempre "buédáquente". 4 anos.

Falamos de ti, todos os dias. Estás vivo, portanto.

Um beijo da tua neta e da tua bisnetinha faladora.

Quinta-feira, Março 15, 2007

Alegria

Mãe a falar ao telefone, com auricular, trancada num trânsito impensável. Conversa de trabalho importante. Interlocutor quase surdo e mãe a caminho da surdez. Filha aos gritos na cadeira de trás. Canta, ò laurindinhaaaaaaa estás à janelaaaaa....

"Filhota canta mais baixinho....filhota! por favor..."
( desculpe....é a minha filha, tem quatro anos)

ó Laurindinhaaaaaa!!!!!!!Estás à janela!!!!!!!!!!!!

- "Filhota, não te digo mais vez nenhuma: canta mais baixinho. A mãe tem de acabar esta conversa. É importante."

- Ó LAURINDINHAAAAAAAAAAA!!! ESTÁS À JANELA!!!!!!!!!!

(Mãe enfurece - se e grita )

- "CALADA, JÁ!!!!!!!!!!!"

Filhota, responde (baixinho)

- ó mãe eu não tenho culpa.... Nasci assim, cheia de alegria....


Mãe a caminho da surdez e interlocutor surdo, rendem - se, numa gargalhada, à resposta do pirolito feliz.

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

1 Ano

Quando as luzes do planetário se fecharam e entrámos, em plena manhã de Inverno, no céu estrelado de uma noite quente de Verão. A mãozinha suada dela apertou a minha e no meio da escuridão, dois olhinhos trémulos pregados no tapete fictício de pontos brilhantes. A pergunta:

- "Mãe?Qual destas estrelinhas é o meu bisavô?"

No silêncio da noite subitamente forjada, uma mãe engole em seco. Olhos cheios de água procurando em desespero o astro mais bonito.

- "É aquela meu amor."

No silêncio da noite subitamente forjada, uma criança respira fundo.


Um ano depois, Querido Avô, continuamos a ver - te.
E quando as datas teimam em confirmar a tua ausência,
nós transformamos o dia em noite, dia e noite, noite e dia,
para estarmos mais perto de ti.


A tua neta e a tua bisneta,
Rita e Leonor